Bad Bunny, um dos artistas mais influentes da atualidade, tem se tornado um símbolo de uma transformação profunda na indústria musical, especialmente no que diz respeito à hegemonia dos Estados Unidos. Com sua apresentação no Super Bowl e o Grammy de melhor álbum do ano, o porto-riquenho não apenas conquistou o público, mas também desafiou as normas estabelecidas, destacando a rica cultura latina em um palco tipicamente americano.
No evento esportivo, Bad Bunny optou por se apresentar exclusivamente em espanhol, repleto de referências culturais que ressoam com o público latino. Sua performance incluiu elementos como vendinhas de água de coco e jogos de dominó, criando uma conexão direta com suas raízes e, ao mesmo tempo, fazendo uma crítica ao imperialismo cultural e às políticas de imigração do governo Trump. O presidente, por sua vez, reagiu negativamente, alegando que a música de Bad Bunny não representava os “padrões de sucesso” dos Estados Unidos.
Contrariando as críticas, Bad Bunny se destacou como o artista mais ouvido na plataforma de streaming Spotify no ano anterior, com seu álbum “Debí Tirar Más Fotos”. Este feito não apenas reafirma a popularidade da música latina, mas também indica uma mudança nas preferências dos ouvintes americanos, que estão cada vez mais abertos a novos gêneros e culturas.
Rosalía, outra artista em ascensão, também exemplifica essa nova onda. Com seu álbum “Lux”, que mistura sonoridades de diferentes partes do mundo, a cantora espanhola se prepara para conquistar os Grammy, marcando uma nova era em que a língua não é mais uma barreira na música. Rosalía afirma que seu trabalho é um reflexo da conexão global, enfatizando que a diversidade cultural deve ser celebrada.
A ascensão do k-pop nos Estados Unidos, representado por grupos como Stray Kids, também evidencia essa transformação. O gênero, que já era popular em várias partes do mundo, conseguiu conquistar o público americano sem a necessidade de se adaptar completamente aos padrões ocidentais. Isso contrasta com a trajetória de artistas latinos, que muitas vezes precisaram cantar em inglês para alcançar a aceitação plena.
Segundo o professor de etnomusicologia Steven Loza, os americanos estão cada vez mais interessados em sons internacionais, especialmente os mais jovens. Embora o reggaeton ainda não tenha alcançado o status de mainstream, sua popularidade está crescendo rapidamente. Além disso, a arte brasileira, como o álbum “Rock Doido” de Gaby Amarantos, também começa a ganhar visibilidade no cenário musical americano, impulsionada por artistas como Anitta.
Bad Bunny, no entanto, adota uma postura ousada ao desafiar a indústria. Ele decidiu não realizar uma turnê nos Estados Unidos, temendo pela segurança de seus fãs latinos, e optou por fazer 31 shows em Porto Rico, injetando centenas de milhões de dólares na economia local. Essa escolha ressalta a ideia de que as fronteiras entre Porto Rico e os Estados Unidos são, de certa forma, ilusórias.
A crise criativa que muitos críticos apontam na música americana pode ser vista como uma oportunidade para artistas internacionais se destacarem. Como observou Kelefa Sanneh, no passado, a música fora dos Estados Unidos não tinha a mesma proeminência, mas a era do streaming mudou essa dinâmica. Hoje, é possível acessar uma gama diversificada de sons de diferentes partes do mundo com facilidade.
Com a crescente aceitação de músicas em línguas estrangeiras e a valorização da diversidade cultural, o panorama musical dos Estados Unidos está em constante evolução. Artistas como Bad Bunny e Rosalía não apenas desafiam as normas, mas também abrem caminho para uma nova era de inclusão e celebração da riqueza cultural global.

