A vida das vítimas do Césio 137 deve mudar para melhor. Isso acontece depois da repercussão da minissérie Emergência Radioativa. A produção liderou o ranking global de séries mais vistas da Netflix na última semana. Com isso, o governo de Goiás sancionou o reajuste das pensões dadas aos afetados pelo material radioativo. A medida já vale a partir deste mês.
O episódio ocorreu em setembro de 1987. É considerado o maior acidente radiológico fora de uma usina nuclear do mundo. O reajuste foi sancionado por Ronaldo Caiado antes de sua renúncia. Com ele, as pensões dos radiolesionados por contato direto com o Césio-137, e daqueles com irradiação superior a 100 RAD, passam de R$ 1.908 para R$ 3.242. Os demais afetados terão o benefício reajustado de R$ 954 para R$ 1.621.
Segundo o governo, 603 pessoas têm direito ao pagamento atualmente. O reajuste era pedido há anos pelas vítimas. Elas estavam desde 2018 sem atualização no valor. Em julho de 2023, o governo de Goiás vetou um projeto de lei que reajustava as pensões. Na época, citou falta de estudo sobre o impacto financeiro nas contas do estado.
O acidente de Goiânia
Em setembro de 1987, Devair Ferreira, dono de um ferro-velho em Goiânia, comprou uma cápsula de chumbo de dois catadores. O objeto foi encontrado nas ruínas de uma antiga clínica. No escuro, ele viu que o material emitia um brilho azulado. Esse brilho vinha de um pó fino dentro da cápsula. Encantado e sem saber do perigo, levou o material para casa. Mostrou para a família e deu um pouco para amigos e parentes.
O pó brilhante era césio-137, uma substância muito radioativa. Ela alimentava uma máquina de radioterapia abandonada. A máquina estava numa clínica desativada, sem cuidados. Com a exposição, as pessoas começaram a adoecer rápido e sem explicação. Assim começou o maior acidente radioativo da história do Brasil. A minissérie Emergência Radioativa retrata esse caso.
A produção é protagonizada por Johnny Massaro. Ele interpreta o físico que descobriu a contaminação. Esta é a produção mais recente sobre o caso, mas não a única. O acidente foi mencionado no curta documental Ilha das Flores (1989). Também foi dramatizado no filme Césio 137 — O Pesadelo de Goiânia (1990), de Roberto Pires. Além disso, é tema de vários documentários e livros. Essas obras recontam a história como um alerta sobre os perigos da radiação.
As consequências do descaso
Sem saber do perigo e negligenciada pelas autoridades, a população de Goiânia ficou vulnerável. Com todos ao redor adoecendo, Maria Gabriela, esposa de Devair, levou a cápsula à Vigilância Sanitária. Ela alertou que aquilo poderia ser a causa das doenças. A queixa, porém, não foi levada a sério de imediato. Isso fez com que a contaminação demorasse a ser controlada.
Nesse meio-tempo, milhares foram expostas ao risco. Elas sofreram por anos com as consequências. Oficialmente, quatro pessoas morreram nos dias seguintes à exposição. Entre elas estavam Maria Gabriela e Leide das Neves, de 6 anos. A menina ingeriu o material ao comer com as mãos contaminadas depois de brincar com o pó.
Os números foram maiores no longo prazo. Segundo a Associação das Vítimas do Césio 137, pelo menos 107 pessoas morreram nos anos seguintes. Os problemas foram desencadeados pela radiação. Cerca de 1.600 foram afetadas diretamente pelo acidente. Todas foram vítimas de um descaso radioativo sem precedentes.
A minissérie da Netflix trouxe nova atenção ao caso. Essa atenção parece ter ajudado a pressionar por mudanças concretas. O reajuste das pensões é um exemplo disso. A história do Césio 137 em Goiânia continua servindo como um alerta importante. O alerta é sobre os riscos de materiais radioativos mal administrados e a necessidade de protocolos rígidos de segurança.
