O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) tem articulado uma reação à vitória da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) como presidente da Comissão dos Direitos da Mulher da Câmara. Erika Hilton, que é a primeira mulher trans a ocupar o posto, foi eleita para presidir o colegiado na última quarta-feira, 11 de março de 2026.
Nas redes sociais, Nikolas Ferreira divulgou um abaixo-assinado que pede aos líderes partidários e ao presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), que pressionem contra o que chamou de “escolha absurda”. O documento já reunia cerca de 195 mil assinaturas na tarde de sexta-feira, 13. O texto defende que a comissão priorize temas como saúde da mulher e combate à violência doméstica, com uma perspectiva que “não dilua a identidade biológica da mulher”.
O deputado também usou as redes para pedir que as deputadas obstruam os trabalhos da comissão em protesto. “As deputadas mulheres não deveriam deixar a comissão de mulheres acontecer. Obstruir e fazer uma zorra até mudar a presidência”, escreveu ele na plataforma X.
Nikolas Ferreira ainda publicou um vídeo no qual expõe seus motivos para se opor à eleição. Ele compartilhou um trecho de um discurso de 2023, no qual aparece usando uma peruca e diz se chamar “Nicole”, em protesto ao que chama de “ideologia de gênero”. No trecho, ele afirma: “As mulheres estão perdendo seu espaço para homens que se sentem mulheres”.
Em sua explanação, o deputado disse que Erika Hilton teria iniciado o mandato insultando as mulheres ao fazer um comentário que mencionava “transfóbicos e imbeCIS”. O termo “cis” se refere a pessoas cisgênero. Nikolas também afirmou que a parlamentar não pretende representar a maioria das mulheres ao priorizar pautas próprias, citando uma declaração em que Hilton disse ter feito história por sua comunidade.
Protestos e votação
Erika Hilton foi eleita presidente da comissão por onze votos, em uma votação que teve chapa única. O acordo para o comando de colegiados na Câmara destinou a comissão ao PSOL, que indicou seu nome. No segundo turno da votação, o quórum foi de 21 deputados, com 11 votos favoráveis e 10 em branco.
O resultado foi contestado por parlamentares de direita, que votaram em branco. Eles argumentaram que a deputada, por não ser uma mulher cisgênero, não poderia representar os anseios das mulheres brasileiras.
Críticas de outras parlamentares
A deputada Clarissa Tércio (PP-PE), que integra a comissão, se manifestou contra a vitória de Hilton. “Como posso ser representada por uma pessoa que não entende o que eu passo? Que nunca soube o que é saúde da mulher, pra representar o que a mulher pensa?”, questionou. Ela acrescentou que as mulheres lutaram por seus espaços e estariam perdendo-os.
A deputada Chris Tonietto (PL-RJ) também disse que Erika Hilton não a representa. Ela levantou a possibilidade de a comissão se tornar um “palanque político”. “Se essa comissão for transformada em palanque político eleitoreiro, só pra lacração de rede social, bancada da selfie, não vai ter como essa comissão andar muito bem”, afirmou.
O episódio reflete um debate mais amplo sobre representatividade e identidade de gênero dentro do Congresso Nacional. A discussão sobre quem pode legitimamente ocupar espaços destinados à defesa de direitos específicos continua a gerar divergências entre os parlamentares, influenciando a dinâmica dos trabalhos legislativos em comissões temáticas.
