O empresário Maurício Camisotti, preso desde setembro sob suspeita de ser um dos beneficiários de fraudes no INSS, assinou um acordo de delação premiada com a Polícia Federal. No acordo, ele admite a existência de fraudes nos descontos das aposentadorias.
Camisotti é apontado como um dos principais operadores do esquema. Ele foi um dos alvos da Operação Sem Desconto na mesma fase que deteve Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
A informação foi inicialmente publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pela Folha. Ele negociava o acordo desde o fim do ano passado. Nesta semana, a defesa enviou o material ao gabinete do ministro André Mendonça, do STF, responsável pela homologação.
Há a expectativa de que, com o acordo, o relator conceda a prisão domiciliar a Camisotti. O acordo também deverá passar pela PGR, mas a negociação foi feita apenas com a PF. Esta é a primeira delação da investigação.
Pesa contra o empresário as acusações de fraude na arrecadação das dívidas e corrupção para facilitar o esquema. Para assinar um acordo de delação, ele precisa confessar crimes e apresentar provas da narrativa que apresentar às autoridades.
Isso inclui a indicação de outras figuras importantes envolvidas, como dirigentes e políticos, e material de corroboração, como conversas e documentos.
O escândalo dos descontos indevidos em aposentadorias e pensões, sem autorização dos segurados, ganhou notoriedade em abril do ano passado durante a primeira operação da PF e da CGU.
Os investigadores suspeitam que entidades responsáveis pelos descontos e empresas que prestam serviços a elas seriam usadas como fachada para lavagem de dinheiro. Camisotti é apontado como beneficiário das fraudes.
Empresas ligadas a Camisotti receberam, por exemplo, transferências da Ambec. A entidade é uma das principais investigadas no caso dos descontos irregulares. O INSS repassou quase R$ 400 milhões à Ambec entre 2023 e 2025.
Como a Folha mostrou no ano passado, Camisotti sacou R$ 7,2 milhões em dinheiro vivo. O valor foi retirado de sua conta em 11 saques.
Entre 2018 e 2025, foram feitos 17 saques, sendo o maior deles no valor de R$ 3 milhões, segundo relatório elaborado pelo Coaf a pedido da CPI do Congresso sobre fraudes no INSS.
Também foram retirados R$ 285 mil de sua conta. O relatório não afirma com clareza quem foi o sacador, apesar de apontar Camisotti como titular. Essas transações levantaram suspeitas de burla na fiscalização do sistema financeiro.
À época da prisão, a defesa de Camisotti dizia que ele nunca participou de qualquer irregularidade envolvendo o INSS.
Em março, um desdobramento da Operação Sem Desconta, que está sob a relatoria do ministro André Mendonça, do STF, determinou a prisão de outros dois suspeitos de envolvimento no escândalo.
A operação também determinou a instalação de tornozeleira eletrônica na deputada Gorete Pereira. Ela nega ter cometido qualquer irregularidade.
O caso segue em investigação, com a delação premiada de Camisotti sendo considerada um passo importante para a elucidação do esquema de fraudes que desviou recursos da previdência social.
