Filha de Manoel Carlos revela doença e morte
Júlia Almeida, filha do autor Manoel Carlos, relatou como foram os últimos meses ao lado do pai em depoimento à revista Veja. Ele morreu em janeiro, aos 92 anos.
A atriz citou o avanço do Parkinson. Ela disse que a convivência foi afetuosa e dolorosa, e que preservar a dignidade do pai era sua prioridade. Encontrou paz na convicção de ter feito tudo ao seu alcance para confortá-lo. Disse que a experiência exigiu adaptação, vigilância e decisões constantes.
Júlia Almeida nasceu enquanto o pai escrevia Sol de Verão, em um apartamento no Leblon, no Rio de Janeiro. Lembra-se da máquina de escrever e do som que ela fazia. Novelas como Laços de Família e Mulheres Apaixonadas entraram na casa das pessoas enquanto transformavam a profissão de seu pai.
Ela afirmou que o diagnóstico mudou completamente a rotina da família. O dia a dia passou a ser tomado por consultas, exames e ajustes práticos. Sua mãe, Bety, foi presença permanente, dando suporte emocional. A família procurou manter hábitos que ele valorizava, como a ida à piscina com um fisioterapeuta, o picolé de coco, a cerveja gelada aos domingos e a leitura do jornal. O vinho, que adorava, teve que ser abandonado.
Júlia fez uma reflexão sobre a importância de deixá-lo longe dos holofotes. Afirmou que, embora fosse figura pública, ele tinha direito à privacidade. Foi firme em não autorizar que aquele momento virasse espetáculo. Para ela, respeitar seu espaço foi uma forma de amor.
Quando as complicações se agravaram e as internações se tornaram frequentes, no início de 2024, ela manteve uma conexão ainda mais próxima. Às vezes, faziam videochamadas quando ele sonhava com ela. No último Natal, organizou uma celebração em família. Beijou sua testa e disse: 'Pode descansar'.
Ela descreveu que o último diálogo foi uma troca de olhares. Manoel Carlos partiu aos 92 anos, em 10 de janeiro, segurando a mão da filha no hospital. Foi em paz e sereno.
Para cuidar do pai, Júlia precisou passar por renúncias e manteve um círculo restrito de amigos. Disse que esses anos a amadureceram. Ela já elaborava a perda e assumia a tarefa de zelar por sua obra antes de sua morte. O trabalho envolve mais de 8.000 caixas de papéis, cartas, rascunhos, prêmios e fotografias.
Catalogar cada caixa, um esforço ainda em andamento, tornou-se uma forma de atravessar o luto. Produzir os documentários 'O Leblon de Manoel Carlos' e 'As Helenas de Manoel Carlos' (no YouTube) é parte do compromisso de fazer essa história ser lembrada. O pai dizia que o que construiu era maior que o tempo. Para ela, isso significa um compromisso de cuidar de seu vasto legado.
O processo de organização do acervo revelou um homem em construção, com dúvidas, vivendo riscos e paixões. Mergulhar em sua trajetória foi uma experiência profundamente tocante para Júlia, que viu ali a jornada do homem que se tornou o grande Maneco conhecido pelo público. Esse trabalho metódico exigiu tempo e dedicação, mas permitiu que ela mantivesse uma conexão próxima com a memória e a história pessoal e profissional do pai.

