Onda de frio atinge sul do Brasil com temperaturas recorde

Ao contrário da Índia que enfrenta ondas de calor intensas ou da França lutando contra a seca, o Brasil testemunhou esta semana algumas das temperaturas mais baixas já vistas em seus estados do sul. Especialistas não descartam a mudança climática e dizem que as condições climáticas extraordinárias são catalisadas pela tempestade subtropical Yakecan.

Em seu documentário “Recife Frio”, de 2009, o diretor brasileiro Kleber Mendonça Filho retratou o inimaginável. Recife, uma cidade tropical no nordeste do Brasil, é subitamente atingida por uma onda de frio que leva as temperaturas a níveis impossíveis. Os habitantes são forçados a se adaptar, os pinguins fazem uma aparição improvável e a comunidade científica global fica horrorizada.

Esta semana, o mundo ficcional de Mendonça se tornou realidade no sul do Brasil.

Enquanto Recife e outras partes do nordeste continuam a desfrutar de temperaturas em torno de 28 graus Celsius, os termômetros nos estados do sul atingiram mínimas sem precedentes.

O Distrito Federal, ao sul de Brasília, registrou sua temperatura mais fria da história em 1,4 graus Celsius na quinta-feira e São Paulo bateu um novo recorde com 6,6 graus na manhã de quarta-feira, temperaturas inéditas desde 1990 na maior cidade da América Latina.

Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, registrou sua temperatura mais baixa em 43 anos em 4,4 graus. E mais ao sul de Santa Catarina, turistas e moradores se aglomeraram do lado de fora para ver em primeira mão a rara queda de neve depois que o estado registrou temperaturas abaixo de 2 graus Celsius por vários dias. A neve não atinge Santa Catarina há 15 anos.

Várias cidades dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Porto Alegre e São José dos Ausentes receberam nevascas, causadas pela tempestade subtropical Yakecan, levando as pessoas a se reunirem nas ruas para apreciar o raro fenômeno.

A chegada de frentes frias no sul é bastante comum nesta época do ano, mas é raro que essas quedas de temperatura cheguem com tanto fervor e cheguem tão ao norte quanto agora.

Os meteorologistas dizem que a onda de frio é resultado da tempestade subtropical Yakecan, inicialmente chamada de ciclone, que atinge o sul do Brasil e o Uruguai.

“No outono, é natural que as massas de ar polares da região antártica se aproximem do equador, reduzindo as temperaturas”, disse a meteorologista brasileira Josélia Pegorim. à sua configuração atmosférica incomum, uma espécie de barreira foi criada deixando as massas de ar frio um pouco presas dentro do país.”

As mudanças climáticas e o aquecimento global também desempenham um papel nesse fenômeno único. Assim como as massas de ar polares viajam para o sul em direção ao equador, os ventos quentes se movem em direção aos polos. Mas com o aumento das temperaturas globais, esses movimentos não são mais equilibrados.

“O que permite que as massas de ar se movam é a diferença de temperatura entre os trópicos e os polos”, disse o meteorologista Giovanni Dolif ao canal de TV brasileiro Globo. “Mas as temperaturas na Antártida não estão subindo tanto quanto no cinturão tropical, como no Brasil. Assim, o movimento dessas massas se intensifica para tentar compensar o desequilíbrio, resultando em ventos mais fortes, tempestades e ondas frias em lugares onde antes não existiam.”

Ainda falta um mês para o início oficial do inverno no país tropical. Mas, por enquanto, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) emitiu um alerta de onda de frio cobrindo toda a metade sul do Brasil, alertando as pessoas sobre os possíveis riscos à saúde que a queda de temperatura pode causar.

E os sinais de alerta do INMET não são infundados. Na quarta-feira, um sem-teto de 66 anos morreu em São Paulo depois de adoecer em uma fila de distribuição de alimentos. Segundo a mídia local, ele passou a noite na rua.

Para tentar conter mais tragédias, a Prefeitura de São Paulo anunciou que fornecerá 2.000 leitos de abrigo adicionais para aumentar sua capacidade total para 17.000. Mas as ruas desta megacidade abrigam cerca de 32.000 pessoas sem abrigo, um número que aumentou em um terço desde antes da pandemia de Covid-19.

O INMET também alertou para “possíveis consequências” que a onda de frio pode ter na agricultura de um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Os preços do café arábica dispararam em junho passado, por exemplo, quando o país enfrentou períodos de frio semelhantes que destruíram as colheitas. O Brasil é o maior produtor de café do mundo.

Desde 2011, ocorreram 15 tempestades subtropicais como Yakecan no Brasil. De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN), sete deles ocorreram entre 2020 e 2022.

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